Dia do Agricultor: amor, cultivo e preservação da terra são as lições de produtor do interior do Espírito Santo
Marcos Roberto Pellacani e sua família fizeram o caminho inverso venderam tudo o que tinham na cidade para investir na compra de um terreno na zona rural
Amor pela terra, por cultivá-la e preservá-la é o que tem movido Marcos Roberto Pellacani desde a infância. Embora não tenha nascido em uma família de agricultores, desde pequeno nutriu o amor pelas atividades do campo. E essa preferência acabou se tornando realidade há 14 anos, quando vendeu tudo que tinha na cidade para comprar um terreno na zona rural de Santa Teresa, no Espírito Santo. Histórias como a da família Pellacani são um exemplo da importância do trabalho no campo e da figura que encabeça as atividades: o agricultor, que tem sua data de comemoração neste 28 de julho, Dia do Agricultor.
Primeiramente apelidado de “aventureiro”, e com anúncios de que “não duraria seis meses”, contrariou todos que não acreditaram em sua determinação e, a cada ano, aumenta sua área de terra para, além de melhorar a propriedade, restaurar e aumentar a cobertura florestal. Mas tudo teve um começo, e o de Marcos foi pela admiração e pelo gosto de trabalhar com a terra. “Como nasci em cidade interiorana, Santa Teresa-ES, desde a escola estive próximo do campo. Apesar de minha família não lidar com essa atividade. Porém, a maioria dos colegas de escola vinham do campo e suas famílias labutavam ali. Com o tempo e a convivência tomei gosto pela coisa, inclusive trabalhando nas terras desses meus amigos, os quais preservo até hoje”, conta.
Um pouco mais tarde, nos anos de juventude, Marcos se afastou um pouco, para concluir os estudos, mas que ainda assim foram bem próximos: cursou Administração Rural. Mesmo sem exercer a função, a vontade de ter sua terra continuava. “Família constituída, trabalhando em outro ramo de atividade, permanecia a ligação e o, na época, sonho, de possuir uma propriedade rural e nela trabalhar. Por fim, em 2012, demos uma guinada na vida da família, vendemos nossas posses na cidade e adquirimos um terreno na zona rural de Santa Teresa-ES, e para lá fomos como se diz popularmente ‘com a mala e a cuia’. E desde então estamos trabalhando para formar o terreno, que hoje já nos dá o retorno esperado, seja financeiro ou de realização pessoal”, destaca.
Lições que vêm do campo
Diferente do dia a dia na cidade, do mundo corrido que busca retornos e respostas cada vez mais rápidas, Marcos entendeu que na agricultura as coisas têm seu próprio caminhar. “Particularmente, aprendi que no campo tudo tem o seu tempo (tempo de plantar, de cuidar, de florescer, colher e realizar). Não posso negar que um dos momentos que mais me marcou, foi quando realizamos nossa primeira colheita, foi a recompensa esperada por muitos anos”, lembra.
Desde a aquisição do terreno, tudo foi feito no tempo da terra, no tempo que a natureza precisa para apresentar seus resultados. Conforme Marcos, esse desafio foi visto já na aquisição do terreno que “estava completamente abandonado, depauperado, inclusive em vias de ser leiloado. Para estruturá-lo, legalizá-lo e vir a produzir foi um tempo difícil, longo, porém a certeza que poderíamos transformar aquele local em um oásis na atribulada vida que vivíamos na cidade nos fez continuar e chegar até aqui”, pontua.
Parcerias sempre são importantes
Também foi preciso enfrentar outros desafios, como o descrédito de quem via sua empreitada pelo lado de fora. “Quando comecei aqui, dada a minha origem, lembre-se, vínhamos da cidade, fui tachado de ‘aventureiro’, ‘esse aí não dura seis meses’ e por aí vai. Contei por vezes com a ajuda de amigos da roça, que ainda que remunerados, dispunham de um tempo em seus próprios afazeres para me ajudar a abrir o terreno e romper diante dos desafios. Hoje o orgulho é que, passados 14 anos, aqui estamos, firmes, produzindo e com planos de ampliar as atividades no futuro”, comemora.
A parceria também veio do cooperativismo, um aliado na educação do filho e na oferta de crédito. “Ainda menino ouvia falar na cooperativa, era lá que comprava ração para alimentar as criações que sempre tínhamos. Com o tempo e a mudança para Santa Maria de Jetibá, cidade onde o cooperativismo é extremamente pujante, me aproximei do meio, vindo a me associar a Natercoop. Também o cooperativismo me proporcionou a oportunidade de dar uma educação de qualidade a meu filho, que estudou desde os tenros tempos de infância até o fim do ensino médio em cooperativa educacional. O Sicredi, desde que chegou a nossa região, foi um parceiro de primeira linha, tem me ajudado com linhas de crédito, sempre descomplicadas e objetivas, e com atendimento próximo e extremamente humanizado, quando comparado a outras instituições com as quais me relaciono”, ressalta o agricultor, enfatizando a importância de contar com amigos e parceiros para seguir com o sonho de uma terra produtiva.
Reconhecimento do agricultor
Para Marcos, a “badalação que hoje existe em cima do agro”, como ele chama, com agroinfluencers, músicas e mais, não representam o dia a dia de quem trabalha com a terra. “Para o agricultor, como se diz, ‘raiz’, a realidade não é tão romântica”, destaca. A experiência, segundo ele, não é glamour e sim acordar cedo, produzir, correr atrás de comercializar a produção e de dinheiro para viabilizar novos projetos e muito mais. “A economia onde a agricultura é forte circula o ano inteiro, não é apenas sazonal, tem toda uma cadeia de comércio e serviços intimamente ligada a agricultura”, revela.
O agricultor lembra ainda do importante papel na produção de alimentos: “basta dizer que o arroz, o feijão, as hortaliças, frutas e o café, não brotam na prateleira do supermercado. Creio que nos últimos anos, uma boa parte da sociedade tem visto o agricultor com outros olhos, creio que seja resultado de uma maior exposição que a mídia atual permite.”
Nisso tudo, ele comemora e conta que o campo mudou sua vida. Tanto que ouve a esposa dizer que foi “contaminado com um vírus da roça”, pois todo ano faz um aumento de área, procurando melhorar a propriedade. Além de produzir, tem se empenhado em restaurar a cobertura florestal. Já são mais 1.500 exemplares de árvores plantados ao que ele reforça que gostaria de ser lembrado pela transformação que implementou na terra “e por esse pequeno esforço na preservação ambiental que venho desenvolvendo, dentro do que me permitem os limites atuais”, completa.